Nós realmente vivemos uma era especial no tênis. Além de podermos acompanhar o maior de todos os tempos (Roger Federer), uma das melhores da história (Serena Williams) e vários jogadores com uma história brilhante (Rafael Nadal, Venus Williams, Maria Sharapova, Novak Djokovic, Kim Clijsters, etc.), ainda teremos a chance de ver o tênis finalmente ter a importância que merece nos Jogos Olímpicos.
A relação entre o tênis e as Olimpíadas não costumava ser próxima. Ao voltar em 1988, sem oferecer premiação ou pontos e não ter o mesmo peso de um Slam, o torneio não era valorizado pelos principais jogadores, algo que se refletia no público. Os tenistas tinham como objetivo a preparação para o US Open. Um exemplo disso é a entrevista que Pete Sampras deu ao site britânico Tennis Space nesta semana, deixando claro que sua participação em Barcelona foi meramente burocrática. Seu maior rival, Andre Agassi, foi medalhista de ouro em Atlanta, mas a situação não mudou tanto. O torneio abrigou ‘zebras’ impressionantes, como o título de Nicolás Massú em 2004.
A situação mudou um pouco em Pequim. Rafael Nadal vinha dos títulos de Roland Garros e Wimbledon e tinha a chance de ser número 1 pela primeira vez (na China, o torneio contou para o ranking). O espanhol não é muito de perder chances e ganhou o ouro após uma semifinal dramática contra Novak Djokovic, que ficou com o bronze. A “mística chilena” permaneceu com a prata de Fernando González.
Mesmo sem um espírito patriota muito latente, Roger Federer sempre jogou as Olimpíadas com muito empenho. Teve derrotas inesperadas, que o abalaram. A importância dos Jogos para o suíço ficou evidente em sua alegria ao ganhar nas duplas com Stanislas Wawrinka em 2008.
Naquele ano, Federer ainda não havia vencido Roland Garros, batido o recorde de Slam ou de semanas na liderança de Sampras. Porém, agora, o ouro em simples é a única coisa que lhe falta (já que ele parece ter se conformado em não ter apoio suficiente para ganhar a Copa Davis). Ainda por cima, o torneio será no All England Club, a sua segunda casa.
Sem dúvida, Wimbledon traz uma importância diferente para o torneio olímpico. Só a curiosidade de ver o clube em clima de Davis já atrai muitos olhares. E a grama, aguentará? Motivação dos jogadores? Enorme. Andy Murray tem a chance de vencer o maior título da carreira em casa e Novak Djokovic pode voltar a ser número 1 momentaneamente. Rafa Nadal, com ou sem joelho, é capaz de tirar qualquer vitória do bolso.
Entre as mulheres, Serena busca seu primeiro ouro em simples e tem boas chances de vencer novamente com Venus nas duplas. Porém, o cansaço da pentacampeã de Wimbledon pode abrir uma porta para “as loiras” (incluo Agnieszka Radwanska aqui, já que seu cabelo está castanho claro).
Adiciono mais um elemento à mistura: a volta das duplas mistas. Será uma chave pequena (16) e nunca é levada muito a sério. Exatamente por isso, geralmente traz os lances mais engraçados (como o ace da Wozniacki no Fish na Copa Hopman).
Por fim, ironicamente, cito a cerimônia de abertura. O tênis tem nove porta-bandeiras confirmados até agora. Roger Federer ainda não sabe se aceita, já que esteve nessa posição duas vezes e gostaria de ceder o direito a outro atleta de ponta do país (pena de quem for o porta-bandeira, ninguém vai filmá-lo).
Mesmo sem o melhor de todos os tempos, a cerimônia terá o touro, o garoto que viu o bombardeio de Belgrado aos 12 anos, a russa que deixou o país quando criança para tentar a sorte nos EUA, a calma polonesa que teve a coragem de demitir o pai e chegou à final de Wimbledon...
Esses tenistas merecem a honra. E as Olimpíadas merecem abrigar o tênis com todo o peso e popularidade que a modalidade tem atualmente.
PS: há algumas semanas escrevi um post sobre regras que os comitês olímpicos haviam inventado que impediriam a participação de tenistas de ponta. Porém, a repercussão fez com que a maioria revisse suas posições. A Alemanha, por exemplo, levará Philipp Kohlschreiber e Julia Goerges (Florian Mayer não vai por questões de calendário), a Suécia mandará Sofia Arvidsson e a Índia deixará Rohan Bopanna jogar com Mahesh Bhupathi.