1) Se você fizer um torneio de melhor de três sets com último set longo, muitos jogos devem passar de 15/15, pelo menos.
Estamos acostumados com extremos: melhor de três com tiebreak no último ou melhor de cinco com set longo (exceto US Open). Já vimos muitas maratonas em Wimbledon, mas foi muito curiosa a frequência dos 25/23, 24/22, 19/17 e derivados nas Olimpíadas. Posso esboçar uma teoria. A grama é um piso que facilita a confirmação do saque, com certeza, e a curta duração das partidas (por conta de ser melhor de três) evitou cansaço excessivo, já que eles estão ‘acostumados’ a suportar durações de 3h, 4h em Grand Slam. Ou seja, o sofrimento físico no 13/13 do terceiro era o mesmo do começo de um quinto set no torneio de Wimbledon.
2) Quando Serena Williams está em forma e motivada, as outras não podem fazer cócegas.
Podemos lembrar do jogo de Virginie Razzano em Roland Garros, mas aquilo foi uma pura pane mental de Serena, que mesmo assim esteve perto de igualar o terceiro set. Antes disso, ela havia vencido Charleston e Madri e não quis jogar a semifinal de Roma. Depois de Paris, triturou a nova geração no All England Club duas vezes. Agora, o objetivo é o US Open, onde Serena sofreu dois grandes traumas (provocados por ela mesma): o foot-fault em 2009 e o ‘hindrance’ do ano passado. Se conseguir superar essa barreira, deve ocupar novamente a primeira posição do ranking prestes a fazer 31 anos. Incrível.
3) As duplas mistas precisam ficar
Sim, a chave foi muito pequena e o match tiebreak tira um pouco da competitividade, mas os jogos são muito divertidos e colocam desafios diferentes para os tenistas. De quebra, ainda quebram alguns estigmas. No match tiebreak da final, por exemplo, com o placar empatado, Victoria Azarenka sacou para Andy Murray. Expectativa: um winner de devolução. Realidade: uma bola na rede do britânico com o segundo saque da bielorrussa. A diferença de potência pode ser atenuada pelo nervosismo, pelo erro. Não é isso que acontece em alguns jogos de simples também? Além disso, acho interessante para os próprios jogadores de ponta, que praticam mais o jogo de rede.
4) Tenistas não fazem ideia de como se comportar no pódio
Michael Phelps no pódio olímpico sabe por onde entrar, em qual posição, onde espera, a hora de subir, como receber a medalha, pegar o buquê, agradecer, ouvir o hino, tirar fotos, descer, tirar mais fotos e sair. Agora veja qualquer uma das cerimônias de premiação do tênis. Era um mais perdido que o outro. Azarenka subiu no pódio antes de ser anunciada, Murray não conseguia colocar a bandeira direito nas costas. Ao invés de seguir a ordem normal, todos se atropelavam na sessão de fotos e andavam para o lado errado. Confesso que me diverti bastante. Os maiores campeões do esporte, acostumados a pegar o prato/troféu, fazer um discurso e ir embora, parecendo totalmente sem rumo e desajeitados com as medalhas e as bandeiras.
5) O tênis não é (mais) um ET nas Olimpíadas
Estádio lotado para a final, pessoas no mundo todo torcendo pela TV, os melhores do circuito lutando a cada game pela vitória. O tênis jamais será um atletismo, uma natação, uma ginástica (e nem precisa ser), mas tampouco é um evento para preencher programação. Foi competitivo, emocionante, engraçado, dramático, alegre e marcante. A dança da vitória de Serena, o abraço de Murray em seu pequeno fã, o encontro de Del Potro e Federer na rede, a luta de Marcelo Melo e Bruno Soares. Os porta-bandeiras!
Podemos pular para 2016 de uma vez?
Há quatro anos, Andy Murray perdeu na primeira rodada as Olimpíadas de Pequim para Yen-Hsun Lu. Ele chegou à China às pressas, pois havia acabado de vencer o Masters de Cincinnati, batendo Novak Djokovic na final. Era apenas o sexto título da sua carreira, o maior de todos até então. A decepção de perder cedo em Pequim motivou Murray a ir bem no US Open. Ele perdeu na final de Nova York, em sets diretos, contra Roger Federer.
A próxima grande final de Murray foi o Australian Open de 2010. O britânico era um dos favoritos, porque teve um excelente 2009, com seis títulos e a segunda posição do ranking por algumas semanas. Mas lá estava ele, Roger Federer, que ganhou a final por três sets a zero.
"I can cry like Roger. It's a shame I can't play like him".

Um ano depois, o mesmo lugar, mas um adversário diferente. Djokovic até então tinha "apenas" um Slam na carreira e ninguém suspeitava que o sérvio faria uma das temporadas mais vitoriosas que o tênis já viu. Era um jogo 'ganhável' para Murray. Três sets a zero.
Dessa vez, o baque foi forte. Murray ficou semanas sem treinar, desmotivado, sem treinador, sem rumo. Voltou em péssima forma para Indian Wells e Miami, perdeu as duas estreias e só se encontrou no saibro.
A quarta final de Slam que Murray perdeu foi a mais sofrida. Contra Federer novamente, mas em casa, após vencer o primeiro set e estar perto de fechar o segundo. Toda a emoção transpareceu no discurso de vice e fez com que Murray ganhasse a simpatia do mundo.
"I'm getting closer".

Por uma força do destino, ao invés do mês que os tops tiram antes do Canadá, havia os Jogos Olímpicos para resgatá-lo do luto. Algo que fez Murray sair de sua casa, que fica perto do All England Club, ir à Quadra Central e ficar por um tempo sentado lá. Colocando a mente no lugar, olhando para frente.
Murray ganhou a medalha de ouro porque seguiu em frente e aprendeu com os erros. Jogou de forma agressiva, corajosa, deixou Federer em dúvida, sacou de forma incrível, manteve os fundamentos básicos do seu jogo (o contra-ataque, a devolução, a velocidade) e fez três aces para fechar a partida.

A vitória fará com que Murray seja menos pressionado para vencer um Slam? Não, provavelmente, ela aumentará. Mas, não importa o que ele faça daqui para frente, Andy seja terá esse dia para lembrar, as duas medalhas para segurar e sentir orgulho do que fez no tênis.