Os outros definem Clijsters
às
19h27
por
Sheila Vieira
Fiquei por um bom tempo pensando em como seria meu post sobre o fim da carreira de Kim Clijsters. Poderia tentar fazer um texto bonitinho de como eu fiquei triste com as derrotas dela para Justine Henin, abri um enorme sorriso com sua volta em 2009, menos em forma, porém, mais feliz e resolvida. A satisfação de vê-la como número 1, mesmo que por apenas uma semana, mostrando como ela ainda era uma das melhores do mundo. Mas a verdade é que há pessoas que podem falar muito melhor do que eu sobre a Kim: suas colegas e adversárias (e o Andy Murray). Todas as frases a seguir foram ditas em entrevistas coletivas neste sábado:
"Para mim, ela sempre foi uma inspiração. Conheci a Kim só depois que ela voltou e jogamos muitas vezes. Ela ter vencido um Slam de cara foi incrível. Kim é um exemplo para as crianças, alguém muito legal para ter por perto, para treinar. Ela é simpática no vestiário e com os fãs. Todo mundo vai sentir sua falta. Desejo o melhor para ela". Victoria Azarenka
"Há tantas coisas ótimas além do fato de ela ser uma incrível tenista, uma campeã, alguém que saiu do esporte para ser mãe e esposa e depois voltou para ganhar mais Slam. Ela é tão determinada, uma das melhores atletas que eu vi no tênis. O jeito que ela se movimenta. Além disso, uma pessoa legal e humilde. Tenho muito respeito por ela". Maria Sharapova
"Kim teve uma carreira fabulosa, especialmente aqui no US Open. Ela sempre traz um tênis especial. É muito inteligente e positiva. Não há como deixar de desejar o melhor para ela". Serena Williams
"Kim teve uma volta sem precedentes. Tenho certeza de que, não fossem as lesões, ela teria feito mais, talvez ganhado uma medalha olímpica. Ela é uma inspiração para todo mundo, provando que um sonho pode levar a qualquer coisa. Isso me motiva". Venus Williams
"Ela é uma das jogadoras que as pessoas querem ver e assistir. Mas Kim decidiu que era tempo. Imagino que esse seja o lugar perfeito para ela parar, vendo o sucesso que teve aqui. Será triste vê-la ir embora". Samantha Stosur
"Como pessoa, algo que eu acho mais importante do que o tênis, ela é adorável. Não a conheço tão bem, mas ela sempre foi muito agradável quando a vi. É muito educada, ama sua filha e sua família. Como jogadora, ela é uma grande competidora. No começo da carreira, teve algumas derrotas duras. Ela sempre jogava com a Henin e havia muita pressão. Depois ela deu a volta por cima dando um tempo do tênis. Voltar vencendo alguns Slam é impressionante. Tenho certeza de que ela será lembrada como uma das grandes tenistas dos últimos 15, 20 anos e uma das melhores pessoas". Andy Murray
Respeitada e admirada por todos. Tenha uma boa vida, Kim.
Quem acompanha tênis realmente percebe que o ano está se aproximando do fim quando chega o US Open. Depois tem Copa Davis, uns torneios legais aqui, outros ali, o Finals, mas a última chance de realmente “fazer história” (a frase do momento) é agora.
Apesar de serem iguais em importância e pontuação, cada Slam tem seu modo de ser. O Australian Open aposta sempre na modernização, Roland Garros e Wimbledon são orgulhosos de suas tradições. O US Open contempla um pouco de tudo: calor, chuva, fogos de artifício, gente louca dançando e uma lista fantástica de campeões.
Vamos então apontar as 10 coisas que caracterizam o Slam de Flushing Meadows:
1 - Dos últimos 27 Slam, o único que teve um vencedor que não se chama Federer, Djokovic ou Nadal foi o US Open. A dominância de Rafael Nadal no saibro e de Roger Federer na grama dificultou muito a vida dos mortais em Paris e Londres. Dessa forma, outros jogadores tiveram mais sucesso no Australian Open e no US Open, disputados no piso mais comum, o sintético. Mesmo assim, apenas um rapaz derrubou o domínio de Fedal + Djoker: Juan Martin del Potro em 2009.
2 - O único Slam em que o Roddick manda mais que o diretor do torneio A chuva causou muitos problemas ao US Open no ano passado. Além dos atrasos, a quadra Louis Armstrong ficou com água infiltrada dentro do piso. Quando Andy Roddick começou o jogo contra David Ferrer pelas oitavas, notou que havia água saindo de dentro da quadra e pediu para que o problema fosse resolvido.
Algum tempo depois, os dois foram chamados de volta à quadra, Roddick deu um verdadeiro esporro no diretor do torneio e se recusou a jogar. Os tenistas ficaram esperando em vão até que Roddick decidiu que o jogo seria na minúscula quadra 13, a única disponível. O campeão de 2003 liderou uma comitiva por Flushing Meadows, ganhou de Ferrer e depois cumprimentou a plateia, que viu o jogo de pé a três metros da quadra. Clássico.
3- A abertura quero-ser-Superbowl Um show de abertura com uma bandeira enorme, algum veterano de guerra sendo homenageado, um cantor famoso interpretando “Star Spangled Banner” de forma excessivamente dramática e fogos de artifício. Ou seja, abertura/encerramento da NFL num estádio menor.
4- Os babados da Serena Quando perguntam a Serena qual é seu Slam favorito, ela geralmente diz Australian Open ou Wimbledon, ao invés do torneio de seu país. Isso provavelmente tem a ver com três episódios da norte-americana em Nova York. O primeiro foi nas quartas de final em 2004, quando a árbitra errou por muito uma chamada, prejudicando Serena no terceiro set contra Jennifer Capriati. Após discutir bastante com a portuguesa Mariana Alves, Serena não conseguiu voltar ao jogo.
Em 2009, o ‘foot-fault’ mais famoso da história. A juíza de linha conhecida como Shino cantou a falta, dando um match-point para Kim Clijsters na semifinal. Revoltada, Serena ameaçou enfiar a bola na garganta da juíza. A tenista levou uma advertência, perdeu um ponto, consequentemente, o jogo. O terceiro episódio foi na final do ano passado contra Sam Stosur. Serena havia salvado um break-point, mas gritou “COME ON” antes da australiana tocar na bola. A árbitra grega Eva Asderaki considerou o berro uma ‘interferência intencional’ e deu o ponto (break-point) para Stosur. Resultado: Serena fez um discurso de ódio contra Asderaki, incluindo a célebre frase “você não é atraente por dentro”. Stosur teve o jogo na mão a partir disso.
5 - O famigerado Super Saturday Quem disse que só no futebol o interesse da TV ganha da vontade dos jogadores? A emissora da TV aberta nos EUA com os direitos de transmissão criou o Super Saturday (duas semifinais masculinas e final feminina) para alavancar a audiência do torneio. Com os atrasos por chuva e a demanda física da competição, que só aumenta, os tenistas ficaram bastante descontentes com a possibilidade de jogar três dias seguidos. Esse problema leva ao próximo tópico.
6 - A famigerada final na segunda-feira Nos últimos quatro anos, o US Open masculino foi decidido na segunda-feira. Sem um teto para garantir a realização dos jogos mais importantes e o desgaste do Super Saturday, virou quase uma tradição o atraso de um dia. Há a possibilidade de a final ser oficializada na segunda no futuro.
7 - A câmera do beijo Uma mania de todos os torneios da América do Norte, não somente no tênis. Durante os intervalos, a câmera foca em um homem e uma mulher e os dois ‘precisam’ se beijar. É bobo, mas dá uma animadinha nas pausas.
8 - O festival de celebridades Wimbledon costuma convidar membros da realeza e lendas do tênis para preencher a Royal Box. Porém, no US Open, o palco está livre para quem estiver lançando um filme, estreando uma nova série ou simplesmente querendo aparecer.
9 - O moço que ama Nova York e dançar Esse cara provavelmente seria levado pela segurança em Paris ou Londres. Em Nova York, vira estrela e faz Federer morrer de rir.
10 - O Slam que não nos faz acordar às 6h da manhã ou passar a madrugada tomando café Essa é uma exclusiva para nós, brasileiros. Ver todo o Australian Open é uma tarefa praticamente impossível e dificilmente o sono não nos vence durante Roland Garros e Wimbledon (“6h... ah, vou dar um cochilo e ligar a TV às 7h”).
O que falta ao resto da ATP?
às
11h05
por
Sheila Vieira
Durante essa semana, José Nilton Dalcim (aka, o chefe) levantou uma questão interessante a respeito da ATP. O que será do circuito masculino quando Roger Federer e Rafael Nadal se aposentarem? Teremos uma sucessão de torneios como Toronto, com Novak Djokovic vencendo com o pé nas costas? Murray será mais consistente? Algum jovem tem chance de se destacar?
Bom, primeiro, eu acho que Roger e Rafa jogarão em alto nível por pelo menos mais uns quatro anos. E quando eles saírem, dificilmente surgirão dois tenistas do mesmo nível. Eles são gênios, uma espécie que aparece a cada 15 anos, no mínimo, e tivemos muita sorte de poder assistir aos dois ao mesmo tempo, colocando estilos de jogo e personalidade tão opostos frente a frente.
O único problema de ter gênios é que eles tiram um pouco da competitividade do resto do circuito. Se houvesse 10 candidatos ao título a cada Grand Slam, estaríamos reclamando que ninguém consegue se firmar, que a geração nova é péssima, que o nível do tênis estaria baixo (soa familiar?).
Mas vamos fazer um exercício de imaginação e pensar o que aconteceria se Federer e Nadal se aposentassem hoje à noite. Quem seguraria o nível técnico e a exposição na mídia da ATP? Vamos olhar um a um:
Djokovic: o problema do sérvio obviamente não é técnico. Penso que sua imagem ainda não é explorada pela publicidade como deveria, para que pessoas no mundo inteiro soubessem quem ele é. Djokovic adora uma câmera e é comunicativo, mas a única marca que realmente aproveita isso é sua fornecedora de raquetes (com a ótima sacada de juntá-lo a Sharapova, os dois têm química). O sérvio também precisa se ajudar e parar de usar marcas de roupas desconhecidas, sem alcance global.
Murray: talento não falta ao britânico, mas a principal crítica a ele era que ele não sabia usá-lo da maneira certa. Também faltava um forehand capaz de dominar um ponto e controle emocional. Na temporada de grama, Murray mostrou bastante evolução exatamente nessas duas coisas. O problema é que, por mais que o mundo se simpatize mais com o britânico por causa dos choros pós-derrota, a verdade é que ele se interessa muito mais em treinar na academia do que sorrir para uma câmera (Ivan Lendl feelings). Dificilmente, Murray juntará multidões para vê-lo fora da Inglaterra.
Tsonga: talento e personalidade sobram no francês. Porém, falta ambição. Tsonga parece contente com seu papel de coadjuvante que apronta de vez em quando. Seu discurso após derrotas é sempre "fui longe, foi legal, até a próxima".
Del Potro: aqui sobra ambição. Desde a temporada fantástica que fez em 2009, o argentino sabe que pode e quer vencer os melhores do mundo. Seu freio sempre foi o físico. Delpo simplesmente não consegue jogar uma sequência normal de torneios sem dores fortes.
Ferrer e Isner: atingiram o limite e sabem disso. Excederam todas as expectativas e merecem ser respeitados por isso.
Tipsarevic: "como ele chegou ao top 10???". Bem simples: jogando toda semana e sempre indo longe. O sérvio vai continuar nesse embalo até seu corpo aguentar, já que ele não é tão jovem.
Berdych: o tcheco nunca foi um tenista confiável na hora da decisão, mas se manteve no top 10 por tanto tempo por vencer os adversários mais fracos e parar diante dos fortes. Porém, recentemente, a tal 'consistência' foi para o ralo.
Raonic: dentre os mais novos, tem de longe a melhor mentalidade. Sabe que seu jogo tem uma limitação e precisa evoluir. Em Toronto e Cincinnati, por exemplo, sua movimentação foi a melhor que já vi. Aceita bem as derrotas e não é mimado.
Tomic: o australiano, por sua vez, foi bastante mimado e agora está vendo que os profissionais sabem lidar com um bom slice. A tonelada de convites que recebeu também não ajudou: agora, Tomic está sofrendo para manter seu ranking. Assim que essa fase instável passar, ele estará preparado para figurar entre os melhores em cinco anos.
Por enquanto, vamos aproveitar Federer e Nadal. Sobre o espanhol, estou otimista com o seu retorno, seja quando for. Ele falou em cortar alguns torneios da quadra dura do seu calendário. Talvez escolha entre Indian Wells e Miami, Toronto e Cincinnati, além de continuar pulando o Masters de Paris. No entanto, para compensar, ele terá que jogar toda semana nos seus melhores pisos (saibro e grama), fazendo uma sequência de ininterrupta de três meses. Não vejo muita diferença.